quarta-feira, 21 de janeiro de 2009


Mexendo na caixa de Pandora encontrei um livro que tomei emprestado de Lilina (Angelina Miranda), uma amiga muito querida. Já faz muito tempo, agora, vou devolve-lo através desse blog.


POEMAS DO CÁRCERE
(CARNET DE PRISON- traduit par Phan Nhuam)

Autor: Ho Chi Minh
Tradução de Coema Simões e Moniz Bandeira
Gráfica Editora Laermmer S.A
Rio de Janeiro – Guanabara
1968

Orelhas

Os Poemas do Cárcere constituem uma peça fundamental para a compreensão do caráter e da psicologia de Ho Chi Minh.

Quem é ele? Como viveu? Que pensa? A personalidade desse homem, que provoca admiração e respeito, tanto nos adversários como nos seguidores, suscita perguntas que todas as respostas conhecidas não satisfazem.

HO Chi Minh, de todos os estadistas do mundo contemporâneo, talvez seja o que menos se revele, o que menos se abra ao contacto da impressa, através de grandes pronunciamentos.

As suas obras só agora chegam ao Brasil.

Daí a importância da publicação dos Poemas do Cárcere, nos quais esse homem resevado e tranqüilo, mas firme e obstinado, exprime a sua intimidade, seus anseios e sentimentos, que, como os de todo líder, refletem os anseios e os sentimentos do povo.

Não se encontram nos seus versos os valores estéticos a que o público ocidental habituou a sua sensibilidade.

Eles encerram, de modo geral, um conteúdo ético e apelam, sobretudo, para a consciência do leitor.

O conteúdo dos Poemas do Cárcere traduz, assim, toda a filosofia de comportamento não só de Ho Chi Minh, mas, do povo vietnamita, que combate e ele simboliza.

A poesia integra o cotidiano do Vietnam.

Ho Chi Minh, freqüentemente, escreve mensagem ou termina seus discursos em versos. A poesia, nele, não representa uma forma de fugir a vida, mas uma forma de enfrenta-la.

Os Poemas do Cárcere mostram que nada é mais precioso para ele do que a independência e a dignidade. E, pela sua voz, fala todo o povo do Vietnam.




HO CHI MINH

A Poesia na Revolução

Magro, rosto amarelado, imberbe, cabelo na testa- este, o aspecto que o jovem Ba apresentava, quando desembarcou no porto do Rio de Janeiro. Trabalhava a bordo de um navio e ficara em terra para tratamento de saúde.

Ba ou, como se notabilizaria mais tarde, Ho Ch Minh habitou uma pensão no bairro de Santa Tereza. Ali passou algum tempo. Talvez três meses, enquanto esperava que outro navio o levasse de volta.

Não se pode precisar exatamente a data. Ba,nos fins de 1911, embarcou, como ajudante de cozieiro, no La Touche Treville, que fazia a linha Haiphong-Marselha. Tinha apenas 21 anos. Conheceu Oram, Dakar, Diego-Suarez, Port Said, Alexandria. E, depois de uma escala em Boston e New York, abandonou a profissão do mar. O mundo estava às portas da guerra. Era 1914.

Há muitas passagens obscuras na sua vida, informações vagas, dados incompletos. Nenhum dos seus biógrafos alude à sua viagem ao Brasil. Mas, evidentemente, foi nesse período que ela se realizou. Ho Chi Minh encontrou, em 1924, Astrogildo Pereira e Rodolfo Coutinho, que buscava o reconhecimento do PCB pela Terceira Internacional. Evocou os seus dias de Rio de Janeiroe revelou que muito impressionara a zona do mangue, o cheiro fétido, o mercado do sexo, subproduto do capitalismo nas condições do atraso semicolonial.

Os três encontraram-se em Moscou. Ba agora se chamava Nguên Ai Quôc e ajudava a articular, na Comitern, a seção do sudeste Asiático. Astrogildo Pereira logo regressou ao Brasil, Rodolfo Coutinho permaneceu e com ele partilhou do mesmo quarto. Esse convívio o levou a aprender a língua portuguesa.

Um ano mais tarde, porem, Nguyên Ai Quôc partiria para a grande jornada. Juntou-se a Hô Tung Mau e Lê Hông Phong, vietnamitas refugiados em Cantão, e criou a Associação da Juventude Revolucionara do Vietnam, que se tornaria a base para a formação do partido Comunista da Indochina, a força-motriz da revolução anticolonial.

Nguyên Ai Quôc, que, anos antes, publicara em Paris, violenta denuncia contra o processo de colonização francesa(1) e colaborara, ativamente no L’Humanité, Lê populaire et Lê Paria, escreveu, em 1929, uma brochura, fixando as diretrizes para a revolução na Indochina, dentro dos princípios do marxismo-leninismo. Intitulava-se O Caminho da Revolução (Lê Chemin de la Revolution) (2) e suas idéias fundamentais se substanciavam nos seguintes pontos:
1. Amplas massas operárias e camponesas ¾ e não um punhado de homens – realizarão a revolução. Daí a organiza-las.
2. Um partido marxista-leninista deve dirigir a revolução.
3. O movimento revolucionário em cada pais deve li8gar-se estreitamente ao proletariado mundial. É preciso fazer de tal forma que a classe operaria e as massas trabalhadoras possam distinguir a Terceira (Comintern) da Segunda Internacional (reformista).

“A burguesia sublevou-se contra o feudalismo, que a oprimia. Esta mesma burguesia tiraniza hoje a classe operaria e o campesinato, que constituem as forças motrizes da revolução” ¾ Dizia Nguyên Ai Quôc.

Mas, o Partido Comunista do Vietnam (Vietnam cong san dang) só surgiu em 3 de fevereiro de 1930 e, em outubro do mesmo ano, transformou-se em Partido Comunista da Indochina (Dong duong cong san dang). E daí por diante, uma sucessão de combates sem trégua se compõe a vida de Ho Chi Minh. Após o fracasso da sublevação de YenBay, em Tonkin, e dos sovietes de Nghê Tinh, naquele mesmo ano, sobreveio a repressão e o movimento de massa entrou em declínio.

Tran Phu, secretario geral do PCI, Phan Van Dông, futuro presidente do Conselho de Ministros da Republica do Vietnam, Tôn Duc Thang e muitos outros caíram presos. O tribunal de Vinh, em1931, condenou Ho Chi Minh a morte e a Sureté ( apolicia de segurança da França) pediu a sua extradição as autoridades inglesas de Hong-Kong, onde estava encarcerado. E, depois, correra a noticia que ele morrera naquela cidade. De 1938 a 1939, porem, Ho Chi Minh viveu em Moscou, de onde, regulamente, escrevia para o Tim Tuc (As Novidades), órgão do PCI. Retornou a China, em agosto de 1938, e serviu como comissário político da missão do general Ying, doutrinando os soldados de Chang Kai-chek, que refizera a sua aliança com os comunistas, diante do avanço dos japoneses.

Estava cada vez mais próximo do seu objetivo: levantar a Indochina contra o jugo colonial. Aquele homem simples, franzino, que, manifestando indignação e tristeza, denuciou, no congresso sosialista de Tours (28.12.20), “as atrocidades praticadas na Indochina pelos bandidos do capitão”, Jamais perdera de vista o infortúnio de seu povo. A guerra mundial, que conflagrara a Europa e a Ásia, criara as condições para o inicio da jornada da libertação.

Ho Chi Minh retornou a Indochina, em janeiro de 1941, após consolidar a primeira zona libertada, na região de Cão Bang. Ali começava a maior epopéia da história contemporânea: a história de um povo pobre, atrasado, oprimido, que teima em ser livre, resiste a luta, prefere sucumbir nas ruínas, a golpe de napalm, a renunciar à sua independência e demonstra, com toda a eloqüência do seu heroísmo e da sua resolução revolucionaria, a fraqueza da maior maquina de guerra do imperialismo mundial.

A revolução é a poesia da historia, o momento de inspiração dos povos. Experiências acumuladas — frustrações e anseios, sofrimentos e alegrias ¾ transbordam, afloram à consciência, tomam forma, adquirem expressão, irradiam-se e empurram a humanidade para o sonho, puxando o sonho para a humanidade. Se toda a revolução tem a força da poesia, toda poesia, que sobrevive, tem a força da revolução.

A Comuna de Paris, as insurreições de 1905 e 1917, na Rússia, os levantes da Alemanha e da Hungria, em 1919, a grande marcha de Mao TseTung, a guerra da Espanha, a revolução da China, as lutas de libertação da Argélia, o heroísmo de Sierra Maestra, a epopéia do Vietnam e o sacrifício de Guevara ¾ eis alguns episódios da historia contemporânea mais fecundos e mais ricos em poesia do que todos os cantos da Ilíada, da Odisséia, de Jerusalém Libertada, de O Paraíso Perdido ou de Os Lusíadas.

A poesia da realidade manifesta-se com tanto poder de comunicação, que ofusca a realidade da poesia. Cada fato em si, que desponta nas manchetes dos jornais e nas noticias de radio, contem toda carga emocional de um poema, diante de qualquer outra palavra se desvanece. É impossível criar alem da criação. Talvez, por isso mesmo, mingúem tenha posto em verso as epopéias da idade contemporânea. E as epopéias são próprias das idades de transição, em que se constrói na ruína, a morte significa vida e o ocaso se confunde com a aurora.

Marx, Trotsky, karlo Liebknecht, maoo Tse-tung, Lumumba e muitos revolucionários escreveram versos, dedicaram-se à poesia. Todos encontraram na política, posteriormente, uma forma de expressão mais poderosa para sua criatividade. No caso de Ho Chi Minh, porem, se a obra do revolucionário traduz o espírito do poeta, a obra do poeta explica o espírito do revolucionário. Não se pode compreende-lo como combatente sem conhece-lo como artista.

“O Vietnam é um pais onde o presidente envia suas saudações e suas ordens do dia, sob a forma de poema, e, seguidamente, termina seus discursos em versos” ¾ comenta Madeleine Riffaud (3). E observa: “Mais a luta endurece, mais os vietnamitas necessitam de poesia. Necessitam da poesia como de um pouco de arroz”.
Aproxima-se a primavera e componho este poema para meus compatriotas do país inteiro.

Que combatam a agressão americana
E novas vitórias
Como flores desabrochem. (4)

O estadista, que formulou nesta saudação para o Ano Novo de 1967, é o mesmo guerrilheiro que nas florestas de Cao Bang, escrevia:

Vozes das fontes claras: canção longínqua.
A lua penetra a arvore secular.
O vento penetra as flores.
A paisagem noturna desenha-se como um quadro.
O homem dorme.
Ele pensa e repensa em sua pátria, angustiado.
Nosso país atravessa duros momentos.
Precisamos meditar em centenas e milhares de tarefas.
Os negócios de Estados, irmos, apóiam-se sobre vossos esforços,
Esforços maiores ainda.
Maior vitória.

Eu leio e o pássaro das florestas vem gemer diante de minha porta.
Escrevo minhas idéias sobre o livro
E as flores das montanhas miram-se no tinteiro.
Chegam-me noticias de vitórias.
O mensageiro estar para vir.
Recordo-me de você e lhe ofereço estes versos. (5)


Não se pode ler, entretanto, a poesia de Ho Chi Minh com os mesmos olhos que se habituaram aos padrões do Ocidente. Seus poemas, na maioria, são curtos e lembrariam os haicais dos japoneses. Encerram, freqüentemente, uma anedota. Ho Chi Minh, através das contradições que joga em cada verso, imprime-lhe um conteúdo ético. O lirismo do romântico ¾ quiça uma ressonância do seu tempo de França--- funde-se no realismo do revolucionário. A sátira transparece no drama. A esperança toma lugar do desespero. O otimismo aponta na tragédia.

Pela manhã, escalando o muro, o sol
vem bater à porta. A porta está fechada
e a noite continua no fundo da prisão.

Os poemas de Ho Chi Minh refletem a revolta do combatente na mansidão do estóico. É o sábio que fala pela voz do poeta.

O palácio de toda a historia
se constrói sobre o povo inteiro. (6)

Não se encontrara, nos seus versos, a fúria da palavra, mas, a sutileza da sabedoria. Não a comunicação pela imagem e sim à imagem pela comunicação.

Os Poemas do Cárcere datam-se do período em que resvalou pelas prisões do Kuomintang. Aprisionara-o a policia de chang Kai-chek, quando ele, em agosto de 1942, atravessou a fronteira da China. Dirigia, na época, o maquis da região de Cão Bang e, como representante da Liga pela independência do Vietnam (Viêt Minh), buscava articular a resistência contra os invasores japoneses.

Iniciou-se o calvário. De T’oung Tchéng a P’íg Mà, de Nân ning a Tsing Si, de Kwei Lin a Lieu Tchèou, coberto de chagas, que lhe ornamentavam o corpo como as vestes de seda dos mandarins, com frio, com fome, caminhando às vezes, 50 quilômetros a pé ou dependurados pelas pernas ao teto de um junco, dormindo junto às latrinas ou amarrados como frango no espeto (assim se chama, na China, o pau-de-arara) ¾ todos os sofrimentos e torturas se abateram sobre aquele homem, mas não lhe quebraram o moral. E até a noticia da sua morte, novamente, ocorreu.

Os Poemas do Cárcere contam esse trajeto de sua vida. Não se trata de uma autoglorificação, de uma elegia à desgraça, mas, de um testemunho e de um protesto, eivado de fé e de humanismo. Escreveu-os no chinês clássico, falando, ao tempo da dinastia dos T’ang, entre os séculos IV E IX. Não usou o idioma do Vietnam, O Quô Ngu, para evitar que descobrissem a sua nacionalidade. Ele se identificou como um jornalista chinês, que vivia na Indochina. E, como dizia Madeleine Rffaud, (7) Ho Chi Minh “maneja tão bem a língua dos como as formas de expressão popular”.

Homem simples, modesto, refratário ao culto da personalidade, apesar da liderança incontestável, que exerce sobre o seu povo, e do prestigio mundial de que desfruta, Ho Chi Ming sempre se recusou a falar de si próprio, nos raros contactos que manteve com a impressa do ocidente. Phan Nhuan, que traduziu seus poemas e escreveu a apresentação, narra uma passagem bastante significativa. Era junho de 1946, em Paris. “Um homem magro, profundamente marcado pelos sofrimentos e privações, estava sentado diante de um buquê muito simples de rosas encarnadas”. Ao seu redor, uma centena de repórteres e observadores de todos os paises. O presidente Ho Chi Minh chefiava uma delegação do governo do Vietnam que negociaria com os franceses a sua independência. Um jornalista, “jovem e rosado”, perseguiu-o, durante um quarto de hora, com suas perguntas insidiosas e, não contente, insistia:

¾ Presidente o senhor é comunista?
O homem, pacientemente:
¾ Sim.
¾ Fez a resistência?
¾ Sim.
¾ Quanto tempo?
¾ Mais ou menos quarenta anos.
¾ Esteve também na prisão!
E, vendo onde o jornalista queria cegar, descreve Phan Nhuan, Ho Chi Minh novamente respondeu com o monossílabo:
¾ Sim.
¾ Que prisões?
¾ Muitas prisões senhor.
¾ Quanto tempo?
“O homem magro sorriu um certo sorriso, observando o jornalista jovem e rosado” ¾ registrou Phan nhuan. E respondeu:
¾ Quando se estar na prisão o tempo é sempre longo.

Os Poemas do Cárcere constituem, assim, a resposta que o jornalista, “magro e rosado”, Tanto buscou. Vale como um depoimento autobiográfico e um retrato da alma desse homem, que conduz, há quase três décadas, o povo do Vietnam no caminho da libertação.

Há personalidades, que sintetizam as virtudes do seu povo, que representam, qualitativamente, a quantidade e fecundam a historia. Quando se diz Ho Chi Minh, fala-se de todos os revolucionários que lutam e morrem no Vietnam. Ele é como aquele monge incendiado, que se dispõe ao sacrifício, mas com a metralhadora na mão.

MONIZ BANDEIRA

Rio, junho de 1968.


(1) Lê procès de lá colonisation française – reeditado em Hanói, 1962, Editions enlangues étrangères.
(2) Lê Chemin de la Révolution – in Ho Chi Minh, Jean lacouture, Editions du Seuil, Paris, 1967.
(3) Au Nord Vietnam ¾ Juliard, Paris, 1967.
(4) I Au Nord Vietnam
(5) I Au Nord Vietnam
(6) Op. Cit.
(7) Op. Cit.




DIARIO DA PRISÃO

Aqui teu corpo estar preso na cela.
Teu espírito, não ele está livre.
Se queres continuar tua missão,
deves manter elevado o teu moral.



EM PRIMEIRA MÃO

Versos jamais me apaixonaram tanto.
Mas, sem nada a fazer prisioneiro,
distraio os dias, que são longos, rimo
enquanto espero ver a liberdade.



CHEGADA À PRISÃO DE TSÎNG SI (*)

O novo preso, acolhem-no os veteranos.
Nuvem de azul perseguem tempestade.
Livremente no céu as nuvens passam.
Um homem livre, só, resta no cárcere.
(*) Cidade principal um hsién (espécie de município) do mesmo nome, subordinada à província de Kouàng Si. (nota da edição vietnamita).



CAMINHO DA VIDA

Montes atravessei, venci as alturas.
As planícies são mais difíceis de passar.
Não me fizeram mal os tigres das montanhas,
mas encontrei um homem e ele me prendeu.

O novo Vietnam eu represento
em vista de amizade aos chefes de um país irmão.
É o oceano que contra a terra se arrebenta?
Vejo que me reservaram as honras da cadeia.

Sou um homem honesto e tranqüilo:
imaginam-me um chinês tenebroso.
É sempre difícil o caminha da vida,
Mas viver sua vida ,não é nada fácil.



SARAU


Ao por do sol quando o jantar termina,
ouve-se musica por toda parte.
Sombria e melancólica, Tsíng Si
Parece transforma-se em uma academia.



REFEIÇÃO DE PRISIONEIRO


Uma tigela de arroz vermelho: (*)
Qualquer refeição.
Nem legumes, nem sal, nem mesmo caldo.
Aquele que possui quem lhe abasteça pode comer
[na cadeia.
Quem não possui ninguém grita
pai e mãe.



A FLAUTA DO COMPANHEIRO DE PRISÃO


Uma canção de nostalgia
subitamente inunda as celas da cadeia.
O tom, gemido. O ritmo, soluço.
Que sofrimento ver-se do outro lado,
por vales e montanhas,
sombra de uma bandeira
que tristemente espera.



TRONCO (*)

Goela faminta, demônio cruel
Todas as noites
Morde e devora nossas pernas.
A garganta animal tragando o pé direito
Em quanto o pé esquerdo esperneia sozinho.


(*) Instrumento de tortura medieval, formado de um cepo com olhais, onde mete o pé do condenado. (Nota dos tradutores).



O JOGO DE XADREZ


O jogo de xadrez ocupa o tempo.
Lutam sem trégua infantes e cavalos. (*)
Como um raio afastar-se
e atacar como um raio.

A tenção e destreza o avanço guiam.
Como minúcia e largueza de visão,
resoluto e tenaz, acossar sem descanso.
De que serve seus carros se caíste no impasse?
Um peão bem colocado o jogo vence.


O equilíbrio de um lance encurrala o inimigo.
A vitória final se delineia.
Prepara bem teus golpes,
mantém secreto o plano,
que assim se tornaras um grande capitão.
(*) Na china, a terminologia do jogo de xadrez baseia-se na do antigo exercito. O peão chama-se infante ou soldado de infantaria; o rei, capitão ou general: a torre e a dama, carro. (nota da edição vietnamita).



A LUA


Que fazer ante o encanto da noite e a beleza do
[tempo?
Através das grades o homem contempla a lua.
A lua contempla a lua através das grades.



A RAÇÃO D’ÁGUA


Meia bacia é a ração d’água.
Faz-se o que quer: asseio ou chá.
Você quer se lavar?
Esqueça o chá
Você quer o chá?
Deixe o asseio.



JOGO DE AZAR


Persegue-se lá fora os jogadores.
Mas na prisão campeia livre o jogo.
O que vai preso varias vezes chora
só ter reconhecido o lugar certo.



JOGADORES PRESOS


As prisões não sustentam jogadores
Para regeneraram mais depressa:
vive com nababo (*) o que tem posses
e o que chora e baba aos bordões.

(*) No original: Ngén ¾ gíria de prisão usada para designar uma espécie de caíde, mas, sobretudo em relação à riqueza. (nota da edição vietnamita).



AO CAIR DA NOITE


O pássaro cansado volta ao ninho
Entre as sombras do bosque.
Vagueia a nuvem pelo céu deserto.
Uma jovem na aldeia moe o milho
e o fogo inflama sua luz vermelha.



NOITE EM LONG TS’IUEN


Correm durante o dia os meus cavalos rápidos. (*)
Como um frango no espeto. (**) eu a noite me
[sinto.
O frio a aproxima-se, os piolhos traiçoeiros.
Mas com o verdelhão por sorte canta o dia (***)


(*) O poeta alude ás suas pernas que, a pé, perfaziam 53quilômetros durante ao dia, para velas-la à noite, metidas em ferros, como frango no espeto ou, mais exatamente: como frango em cinco temperos, versão chinesa do frango no espeto, que consiste em amarrar as pernas e as asas da ave, aromatiza-la e arrumar as coxas artisticamente retorcidas.
(Nota da edição vietnamita).

(**) Espécie de tortura, como pau-de-arara (Nota dos tradutores)

(***) Pássaro cujo macho tem o peito amarelo e as asas negras. As fêmeas são azuis e possuem as asas negras.(Nota dos tradutores).



T’IEN TOUNG


No almoço e no jantar as tigelas de papas.
Virando sem parar, ronca e berra a barriga.
Poe três yuans arroz seco enraivece o estomago.
Ah! o arroz é de perola, o pau de canela! (*)
(*) É uma expressão para indicar a carestia de vida. Na Europa, diz-se: o arroz é de ouro. (Nota da edição vietnamita).



AO CHEGAR Á PRISÕA DE TIEN PAO


Cinqüenta e três quilômetros ao dia,
meias rotas, chapéu, roupas molhadas.
Sem saber o lugar onde dormir
aguarda na latrina o sol nascer.



A MULHER VISITA O MARIDO PRESSO



Ele
detrás das grades
Ela
diante.
Tão próximos: uma polegada.
E tão distantes: o céu da terra.
O que a boca deve calar
os olhos contam.
Antes da palavra
as lagrimas nas pálpebras.



ORGANIZA-SE A RECEPÇÃO SOLENE DE WILKIE (*)



(A imprensa anuncia)


Como tu, amigo da China.
Como tu, indo a Tch’oûng King.
Estás sentado no salão.
Eu, prisioneiro.
Como tu, sou também delegado.
Por que a diferença?
Parcialidades dos homens.
As águas sempre correm para o Oriente. (**)
(*) Chefe de uma delegação norte-americana que estava na China em 1942. (Nota da edição vietnamita).
(**) Poucas pessoas observam no mapa geográfico, que todos os rios da China (o rio Amarelo, o Yang Tseù ou o Si Kiang) correm para o leste. Daí o celebre verso que passou a provérbio: “Desde os tempos antigos que as águas correm para o Oriente”. (Nota da edição vietnamita).



EXTORÇÃO DIRIGIDA A SI PRÓPRIO


Se não houvesse o luto, a morte, o frio do inverno,
quem reconheceria o frio do inverno?
O acaso conduziu-me aos fornos das desgraças
para fazer-me forte e de consciência rija.




RESTAURANTE


Entre sombras, à beira do caminho
numa casa de palha o restaurante.
Pirão frio e sal branco, no menu,
retém o forasteiro alguns momentos.




A PRISÃO EM KOUO TE



Como em família vive essa casa de força.
Azeite, lenha, arroz e sal ¾ todos possuem.
Cada cela parece um lar do prisioneiro:
Todo dia cozinha o arroz e o caldo engrossa.



A TRANSFERENCIA DO PRISIONEIRO PELA
MADRUGADA


Primeiro canto do galo
pela noite de negro ainda.
Como uma escolta de estrelas
a lua emerge dos montes.
O viajante segue a estrela,
rota de grandes viajantes.
Rajadas frias de gelo
o vento de outono sopra.
O seu rosto fustigado.
O clarão que rasga o Oriente
já se transforma em aurora
e varre os restos da noite.
Um bafo de fogo envolve
tanto a terra como o céu.
O viajante sente súbito
a poesia crepitando.




DE LONG NGAN A T’UOONG TCHENG



A região é intensa e a terra tão ingrata.
O homem ama o trabalho e ama a economia.
Parece que não veio a chuva à primavera:
Ceifam-se dois ou três dos dez feixes sonhados.



O CAMINHO


Se levo fortemente atados os meus braços,
ouço os pássaros, sinto o perfume das flores.
Quem me pode impedir essa felicidade
que me faz menos só e a marcha menos triste?



T’OUNG TCHEENG


Na prisão de T’oung Tcheng o mesmo que em
[ Pîng Má.
Simples mingau que deixa a barriga vazia.
Tem-se a água que quer e a luz que se deseja:
Abre-se a porta ao ar duas vezes por dia.


COBERTO DE PAPEL DO COMPANHEIRO DE PRISÃO



Livros novos, papéis velhos são amontoados.
Cobertor de papel é melhor que nenhum.
Abrigados do frio os ricos adormecem
Enquanto na prisão tantos tremem sem sono.



NOITE DE OUTONO


À noite, o corpo e as pernas enroscadas.
Nem colchão nem coberta, insone ao frio.
Sob o gelo da lua, as bananeiras.
A Ursa maior oscila na vigia.



PERNAS E BRAÇOS AMARRADOS



Enrolam-se os dragões nas pernas e nos
[braços (*).
Terão os generais dragonas mais bonitas?
Em fios de ouro são as dragonas que
[ostentam.
As minhas ¾ podem ver ¾ são belas cordas
[grossas.

(*) Os dragões eram atributos dos imperadores chineses e vietnamitas, os emblemas de majestade, por causa de seus ancestrais totêmicos. (Nota da edição vietnamita.)



ADEUS A UM DENTE




Inabalável foste,
a vida de sete fôlegos.
Eras tão diferente de tua irmã mais velha, (*)
flexível, incomensurável.
Partilhamos juntos o gosto da vida.
E agora nos separam
meu dente inseparável.


(*) trata-se da língua ¾ irmã mais velha do dente ¾ porque o precede na vida. (Nota da edição vietnamita).



A MULHER DO INSUBMISSO (*)



Meu esposo partiu e não retorna.
Fiquei Abandonada ao meu desgosto.
Minha dor comoveu o mandarim
Que me envia à prisão para descanso.


(*) Quando um homem não queria ser soldado, o governo prendia sua mulher e seus filhos. Procedimento bárbaro que o autor desmoraliza. (Nota da edição vietnamita).





ESTORIA PARA RIR



A morada oficial, o arroz do estado,
A guarda se reveza a cada passo.
Horas de ócio, passeio à vontade.
Não acham muita honra para um homem?



ACORRENTADO A CAMINHO DE NÂNG NÎNG



A corda é bem vulgar. Trocam-na por grilhões
que provoca os sons de jade e camafeu.
Suspeito como espião aos olhares dos guardas,
que caminhar de rei, que porte de fidalgo! (*)


(*) quando dignatários e importantes homens de letras achavam-se, outrora, em audiência solene na corte, usavam cinturões enfeitados de pedras preciosas, que produziam singular ruído. ( Nota da edição vietnamita).




NA ESTRADA... OS GUARDAS CARREGAVAM UM PORCO



Carregando um leitão, os guardas me puxavam.
Vai nos braços um porco, um homem na coleira.
Um porco vale mais. É baixo o preço de um homem
quando não pode usar a sua liberdade.



Entre mil aflições, centenas de infortúnios,
Perder a liberdade é o que pior existe.
Quando cada atitude e cada gesto espreitam,
sois um cavalo, um boi que qualquer um maneja.




NO MEIO DO CAMINHO TOMO O JUNCO
YONG MÎNG (NANG MÎNG)


Deslizo pelas águas para Yong Mîng.
Os pés presos ao teto, torturado. (*)
Os povoados são densos sobre o rio,
Dos pescadores leves as sampanas.



(*) A s autoridades nacionalistas realizavam a transferência dos prisioneiros, pendurando-os, pelos pés, ao teto de um junco. De cabeça para baixo, esse prisioneiro parece não perder a visão otimista do mundo. (Nota da edição vietnamita).







A PRISÃO DE NANG NÎNG




Uma prisão no estilo ultra-moderno.
Farta iluminação a luz elétrica.
Um pirão sem tempero, a refeição:
A barriga vazia ronca e vira.




UM GALO CANTA



És um animal comum
que anuncia o sol.
Ao primeiro canto
um povo emerge do sono.
O trabalho que fazes não é tão desprezível.




UM JOGADOR DETIDO ACABA DE
“PIFAR” (*)

Ele não era mais que pele sobre os ossos.
Não agüentava a fome, o frio, essa miséria.
Apoiado em meu ombro dormiu à noite, ontem,
E no seio da terra entrou antes da aurora.


(*) No original em gíria. (Nota da edição vietnamita).



MAIS OUTRO...



Yi, Ts’î (*) não comiam arroz dos tiranos Tcheou.
O jogador rejeita a comida do cárcere.
Yi, T’sî morreram de fome nos montes Cheòu
[Yang.

(*) Yi, T’sî são dois personagem semi-histórico e semi-lendários, que existiram no fim do penúltimo milênio antes da era cristã, e se tornaram símbolo de fidelidade a um principio moral. Naquela época, a Flor-Central, sob a suserania nominal dosYin, estava de fato dividida em inúmeros estados-tribos, independentes uns dos outros. Yin T’sî ¾ em nome da ética tribal ¾ desaconselhavam o chefe dos Tcheou ¾ um dos mais fortes principados ¾ a não empreender a guerra de hegemonia que ele preparava. O Tcheou entretanto, conseguiram vencer os Yîn e dominar toda a Planíce Central. A fim de não comer o arroz dos Tcheou, que iria comprometer-los, Yi Ts’î retiraram-se para a floresta, viveram de plantas e morreram de fome. O jogador a que se refere o poeta, não será por acaso um sábio conservador desse principio? (Nota da edição vietnamita).



PRIBIDO FUMAR



É proibido fumar nesse recinto.
O fumo confiscado o guarda usa.
Ele pode fumar quando quiser,
Mas, se fumas, irmão, botam-te algemas.



CREPÚSCULO


No rebolo dos montes a espada dos ventos se afia.
Um frio de lamina atravessa a carne dos maciços.
Soa ao longe um sino... Apressa-te peregrino!
A criança recolhe o búfalo
soprando flauta.



INSÔNIA



Uma noite sem dormir. Duas noites. Três noites.
Impossível dormir! Agito-me, angustiado.
Quarta noite. Quinta noite... Será sonho? Vigília?
Cinco pontas de uma estrela enrolam meus pensamentos. (*)


(*) A bandeira da resistência vietnamita tem uma estrela de cinco pontas sobre um fundo vermelho. (Nota da edição vietnamita).



PENSANDO NUM AMIGO


Pelas margens do rio outrora me seguias.
De te me despedia: até outra colheita.
O arado novamente arranhou a planície
e, longe do pais, me fazem prisioneiro.



A SARNA


Coberto de azul (*) e manchados de chagas.
Que damasco em flor!
Violas sensíveis que todo dia dedilhamos.
Vestidos em damasco, belos Senhores do Cárcere...
Que concerto de corações!
Que concerto de musica!

(*) O poeta refere- se a cianose, enfermidade produzida por embaraço circulatório e que provoca uma coloração azulada na pele. (Nota da edição vietnamita).


CANTO DO ARROZ DESCASCANDO


Sofre o arroz o choque do pilão.
Repare que brancura após a prova.
Também um homem para ser um homem
Tem que sentir o golpe do infortúnio.



“HOTEL PARA VIAJANTES”



O novo prisioneiro quando chega
deve deitar perto da latrina.
Mas se queres melhor alojamento
Junte algum dinheiro às escondidas.




CLARA MANHÃ



Sombras, fumaça, nevoa se dissipam,
quando o sol da manhã entra no cárcere.
Um sopro, que remova, inunda a terra.
Volta o sorriso a cem rostos fechados.







ALERTA NO VIETNAM



Informação da Agencia Tch’é Tão, publicada na impressa de Nân Nîng.


Antes a morte à vida como servo.
Quando as bandeiras livres se desfraldam,
Que desgraça resta numa enxovia
e não poder lançar-me nas batalhas.




PRATO DE CACHORRO EM PÃOHSIANG




Comem em Koùo Te peixe “`la fraîche”. (*)
Em Pão Hsiang fazemjus ao prato de cachorro.
Os guardas de minha repugnante escolta
sabem as vezes viver e comer bem.

(*) Peixe cru: iguaria requintada que se come no Oriente. (Nota dos tradutores)




O COOLE CONSTRUTOR DE GRANDES
ESTRADAS


Sem trégua, sem repouso, à chuva e vento,
trabalha o coole. Vida de miséria.
Cavalheiros, pedestres, transeunte,
quando se lembrarão de suas dores?




O MEU BASTÃO ROUBADO POR UM
GUARDA


Sempre foste direito, infatigável, firme.
Fundido à minha mão, andamos pelos anos.
Maldito seja quem nos separou! Patife!
Solitário deixou-te. E a mim, inconsolável.



MARCO DE QUILÔMETROS



Nada de grande, extraordinário,
De imperia ou principesco:
Nada mais que simples bloco de pedra
á beira da estrada.
As pessoas te buscam
para não se perderem.
Indicas o caminho a cada um
e o tamanho do trajeto.
Isto não é nada, pequena pedra!
Mas ninguém poderá esquecer-te.



O PREÇO DA LUZ



Ao entrar na prisão pagas a luz.
Seis dólares (*) por homem: em Kouáng-Si.
Nesse lugar sombrio ¾ o mais escuro ¾
não vale um centavo (**) a luz do dia.


(*) A velha moeda Yuân, chamada comumente dólar chinês, não tem nenhuma relação com o dólar. Seu valor real era mínimo.(Nota da edição vietnamita).
(**) Em francês, liard: antiga moeda de cobre, francesa, equivalente a um quarto de soldo.
(Nota dos tradutores).



A VIDA NA PRISÃO



Um fogareiro cada qual possui.
A marmita ajustada ao seu tamanho.
Para fazer chá, arroz, legumes,
Arde o fogo sagrado todo o dia.



O BOM SENHOR KOÛO



Providencial acaso, encontro formidável!
Como direi? O bom senhor Koûo foi para
mim como em noite fria o fogo de carvão.
Sob os céus, corações assim existem ainda?



MÔ, O CARCEREIRO DE PIN YÂNG



Mo, guarda de Pin Yâng, a fama de bravura,
com seu próprio dinheiro alimenta os detentos.
Liberta-os grilhões para que à noite durmam
Segue seu sentimento e não a autoridade.




ELE QUERIA FUGIR



Só trazia uma idéia: liberdade!
Do carro se lançou, jogando a vida.
Correu trezentos metros (*) de aventura:
trouxeram-no de volta os mesmos guardas.

(*) Na edição vietnamita, demi-Li, ou seja, meia-Li.
Li: medida chinesa equivalente a 600 metros mais ou menos.
(Nota dos tradutores).


EM LAI PIN


Passa o dia jogando o chefe da prisão.
O guarda-chefe rouba os presos que transporta.
O hsièn-chefe despachas os papeis no escritório.
Nada muda em Lai Pi: há sempre a Grande
[Paz (*)

(*) A Grande Paz (T’ing P’ing) é a Pax romana da China Imperial, a paz dos mandarinos.
(Nota da edição vietnamita)


MEIA NOITE


Todos, dormindo, a mesma expressão de inocência.
O despertar divide em bons e maus os homens.
Bom, mau ¾ ninguém assim de natureza nasce.
A educação depois o seu caráter forma.
QUATRO MESES JÁ



“Um dia encarcerado:
Mil anos lá fora”.
Não é vã palavras
este provérbio antigo.
Quatro meses na cela
destruíram meu corpo
mais que dez anos de vida.
Quatro meses de fome,
quatro meses de insônia,
sem mudar de roupa
sem poder me lavar.
Abandonou-me um dente,
cabelos branquearam,
negro, magro, faminto,
vestido de sarna e de feridas.
Mas paciente sou,
duro, rijo,
sem recuar um palmo.
Materialmente miserável,
o moral, firme.



CHEGADA A KOUÉ-LIN (*)



Nome impróprio Koué-Lin: nem bosque nem canela,
Somente águas sem fundo e montes sem acesso.
Ao pé de uma figueira, uma triste prisão,
Sem luz durante o dia e de noite sem vozes.


(*) Koué-Lin (Quê-lam em vietnamita) significa bosque das caneleiras ou, mais exatamente, das canifístulas. É o nome de uma localidade em Kouàng-Si. (Nota da edição vietnamita).



DIREITO DE ENTRADA NA PRISÃO



Ao entra na prisão também se paga,
Cinqüenta dólares (*) a preço baixo,.
Se te falta dinheiro para a conta
Um calvário te espera a cada passo.

(*) Dólar chinês. (Nota dos tradutores)



?!


O que tanto sofri durante quarenta dias!
Inútil sofrimento enfrentei tanto tempo.
É preciso fazer o retorno a Leoù Tcheou:
Um homem se entrega e você solta bílis.



ANTE O BIRÔ POLÍTICO DA QUARTA
ZONA DE GUERRA


Arrastão por treze hsién da região de Kouàng-Si.
Detidos em dezoito prisões infectadas.
Que crime terei eu cometido, mandarins veneráveis?
Crime de amar o povo e consagrar-lhe a vida.



IMPRESSÕES DE UM NOITE


Abre-se a rosa
a rosa fenece
em saber o que faz.
Mas se uma rosa-perfume
na prisão se perde
gritam no coração
do confinado
todas as injustiças do mundo.




A EPOCA DO TS’ING MÎNG (*)

A pura claridade de Ts’ing Mîng, a chuva fina.
A alma do prisioneiro as tristezas invadem.
Onde obter aqui liberdade?
Dos mandarins a porta o guarda ao longe aponta.

(*) ts’ing Mîng ou pura claridade é o período do antigo calendário chinês que conresponde, mais ou menos, à primeira quinzena de abril. Se na literatura, o Ts’ing Mîng é a época do ano em que, sob um céu límpido, florescem as pereiras e as paulownias (1), é também a época em que na China do Sul, cai uma chuva fina e desesperante, que provoca um estado de espírito particular. Sob essa forma de spleen (2), conserva-se da dinastia T’âng uma estrofe célebre que o autor adaptou. Para isso, foi suficiente mudar dez caracteres do poema T’âang, de um pessimismo calculado, e transformar a tristeza em humor. (Nota da edição vietnamita)

(1)Paulownia: arvore do Extremo Oriente, com flores aromáticas, gênero das plantas emolientes. Atinge a altura de quinze metros e as folhas medem trinta centímetros.
Plantam-se nos parques e ao longo das ruas. Origem do nome: Ana Pauwona, filha do czar Paulo I. (nota dos tradutores)
(2) Spleen: estado de espirito que se caracteriza por completo aborrecimento de tudo. (Nota dos tradutores).



IMPRESSÕES DO OUTONO



A Ursa Maior nos montes. São dez horas.
Sua alegria o grilo canta. Outono.
Que importa ao preso tanta natureza
Se só um canto escuta: a liberdade.


O outono viu-me livre no outro ano
e eis que me encontra agora prisioneiro.
Sou menos útil ao meu povo amado?
Este outono bem vale o que passou.



PERDER A LIBERDADE


Que tristeza perder a liberdade!
Triste senhor do céu, sem coração!
Sapatos em frangalhos, pés na lama,
Devo andar sem descanso a qualquer custo.
PENSAR NOS DIAS PASSADOS



Pensaria o céu, em trancar um herói?
Oito meses à morte em ferro e correntes.
Longe do sol, ó preço de uma sombra humana!
Mas quando se abrirão as portas da cadeia? (*)

(*) Esse verso faz parte do celebre apelo aos intelectuais, do patriota Phan Chaâu Trinh, em prol de um concurso trienal no inicio desse século, quando o Vietnam acabava de perder sua independência:

................................................

Truông chu bach niên thoa ma
Bãt tri hà nhât xuât lao lung?

(Ficaremos cem anos curvados sob ultrajes,
mas quando, se abrirão as portas da prisão?)
(Nota da edição vietnamita)


EVOCAÇÕES


Hirsuta, negra, a copa
Arvore desgrenhada,
retrato de Tchang-Fei (*)
O constente Kouan Yù
¾ o sol nascente a minha
lealdade testemunha.
Sem noticias da pátria
Durante todo um ano,
Sempre esperando um eco.


(*) Tchang-Fei e Kouoan Yù soa dois heróis da época dos Três Reinos (séc.III), que, com Lieôu Péi, o futuro rei dos Chou, combateram pela legitimidade Ham, considerada como causa justa. Um romance histórico muito popular ¾ Três Reinos ¾, do século XIV, exalta a fraternidade desses três companheiro de armas, cujas figuras permanece mais viva s no coração dos chineses do que os Três Mosqueteiros no dos franceses.
Kouan Yù, um misto de Marte, Aquiles e Bayard, é venerado após os Song, nos paises de tradição chinesa ¾ no Templo das Virtudes Militares, como símbolo da retidão, Constancia e bravura. Tchang-Fei, representado na estatuaria sob os traços de um personagem hirsuto, escuro é o tipo do guerreiro ardente e fiel.
É interessante observar o processo de associação de idéias do poeta. Ao ver a copa desgranhada das arvores,
Ele pensa em Tchang Fei (negro-força física). Depois de Tchang Fei, evoca Kouan Yù e recorda a terra dos HAN.
O tradutor acrescentou os qualitativos negro, constante. Embora não figure no texto de modo evidente, estão submetidos na idéia que se faz dos personagens. A razão é que a língua chinesa, pobre em certa categoria de termos abstratos, tende a transforma-los através de metáforas.
Assim coração de Kouan-Yù-sin (coração de Kouuan-Yù) significa constância, lealdade. Uma tradução que não leva em conta esse aspecto de língua chinesa dará uma idéia ininteligível. (Nota da edição vietnamita).




AO LER “ANTOLOGIA DOS MIL POETAS”



Flores, neve, lua e vento, montes rios
¾ cantar a natureza era o prazer dos antigos.
É preciso armar de aço os versos de nosso tempo.
Também os poetas devem saber combater.



BELEZA PERMANENTE



Tudo muda ¾ é a lei.
A roda gira e não para.
Após a chuva, o sol.
O universo , num instante,
troca suas roupas molhadas.
A paisagem estende tapetes
sobre seis quilômetros.
Sol doce, leve brisa,
uma flor sorri.
No topo da arvore,
o galho brilha.
Canta um coro de pássaros.
Homens e animais sentem a ressurreição.
Que de mais natural?
Após a desgraça o jubilo.


LIBERDADE, PREPARO-ME PARA ATRAVESSAR
AS MONTANHAS


Nuvens e montes. Montes e nuvens.
Cintila o rio em baixo. Nada o mancha.
Palpita o peito, sigo Si-Fong Ling, (*)
O olhar no sul, pensando nos amigos.


(*) Si-Fong Ling ¾ Montes do Oeste, cadeia de montanhas que se vê de Lieoù, onde se encontrava o poeta ao sair da prisão.
Esta estrofe não figura no velho CARNET DE PRISON, de Ho Chi Minh. Ela é, na realidade, uma mensagem de além-tumulo.
Certo dia de 1944, dois anos após o desaparecimento de Ho Chi Minh, morto ¾ e enterrado, ¾ Vo Ngguyen Giap,
Que comandava o grupo de resistentes de Cao Bang, encontrava um exemplar de um jornal de Tch’oung King, com a estrofe acima, na margem, escrita a mão. A caligrafia era a mesma do desaparecido.
Impossível qualquer duvida: o morto estava VIVO.
(Nota da edição vietnamita).

Aqui termino a digitação desse maravilhoso livro.

Dila

2 comentários:

  1. olá, dila :)

    obrigada péla leitura e comentário lá no ellenismos. quando eu li "dila", achei que fosse uma guria que se formou comigo, a gente não gostava da prof. de artes. rsrs.. ai entrei no teu perfil e... a guria "do" fred... acho linda, lindíssima esta fotografia, até comentei em postagem dele, deve ter lido...

    já havia passado por aqui também, ou no arte e yoga. é tudo, né?

    quanto ao poema, infelizmente ainda não vi a agenda. mas que bom que gostou.

    um beijo e um cheiro, visse ;)

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  2. Achei bem interessante e resolvi seguir. rs
    Que bom que você gostou de lá!
    Abraço!

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